Literatura Portuguesa – A Prosa Trovadoresca

NOVELAS DE CAVALARIA

De caráter medieval, as novelas de cavalaria tem origem na Inglaterra ou França e nasceram a partir das canções de gesta, a poesia com temas guerreiros, que deixou de ser expressa e cantada através de versos e passou a ser lida e expressa através da prosa. As novelas de cavalaria chegaram em Portugal durante o reinado de Afonso III, no século XIII, sendo traduzidas do Francês, sofreram algumas alterações com o objetivo de adequá-las ao contexto histórico e cultural de Português. Era circulada através da fidalguia e da realeza.

As novelas foram divididas em três ciclos: O ciclo bretão ou arturiano, onde o Rei Arthur e seus cavaleiros são os protagonistas; O ciclo carolíngio, protagonizado por Carlos Magno e os doze pares de França; e O ciclo clássico, com as novelas de temas greco-latinos. Porém, apenas o ciclo arturiano deixou comprovações de ter passado por Portugal. Os outros exerceram influência, mas apenas na poesia, pois não há conhecimento de nenhuma novela em vernáculo desses temas.

Das novelas em circulação, restaram: Histórias de Merlim, José de Arimatéia e a Demanda do Santo Graal. Destas, temos apenas a tradução espanhola da História de Merlin, pois a versão portuguesa desapareceu; José de Arimatéia foi publicado em 1967, em edição paleográfica. A novela mística tem visão celestial de José de Arimatéia, que recebe um livro (A demanda do Santo Graal, que faz parte de uma trilogia com José de Arimatéia e História de Merlin) e parte para Jerusalém, onde encontra e convive com Cristo até a cruz, quando recolhe seu santo sangue. O vaso onde põe o sangue é considerado santo e Deus o ordena que o esconda. Depois morre em Sarras e Galaaz, filho de Lancelote, vai em busca do Santo Vaso.

A Demanda do Santo Graal, terceira obra da trilogia, inicialmente era cantada em verso e tinha Perceval como herói. Depois a lenda é transformada em prosa por autoria de Gautier Map, que substitui Perceval por Galaaz. A princípio, a lenda de origem celta é pagã, marcada por um realismo profano. A igreja reage diante do desvirtuamento da Cavalaria e a lenda transforma-se em um ascese, caracterizada pelo desprezo do corpo e valorização da vida espiritual. Após ser cristianizada, seus símbolos (o vaso, a espada, o escudo…) passam a assumir um caráter místico. Portanto, a Demanda do Santo Graal passa a constituir uma novela de cavalaria mística e simbólica. Nela temos uma noção de herói antifeudal, aquele que está a serviço, mas não do senhor feudal e sim de sua salvação, qualificado por seu conformismo e a busca pela perfeição. A novela só foi publicada inteiramente em 1944, no Rio de Janeiro. E representa o maior monumento literário na ficção da época, nos trazendo um retrato da Idade Média mística.

CRONICÕES E LIVROS DE LINHAGENS

Além da poesia e das novelas de cavalaria, a época do Trovadorismo também é marcada por outras formas literárias ou paraliterárias. São As crônicas (ou cronicões), as hagiografias e os livros de linhagens (ou nobiliários).

Entre as crônicas temos as Crônicas Breves do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, publicadas por Alexandre Herculano em Portugaliae Monumenta Historica, na forma de quatro fragmentos, que dão início a historiografia portuguesa. Além da Crônica Geral da Espanha (1344), elaborada por D. Pedro, Conde de Barcelos (m. em 1354).

As hagiografias eram escritas em latim documentava a vida dos sanos e não teve muito significado literário.

Os livros de linhagens tinham o objetivo de estabelecer graus de parentesco especialmente entre os fidalgos para resolver casos onde haviam dúvidas sobre heranças, filiações ou casamentos em pecado (casamento entre parentes). Eram relações de nomes que formavam árvores genealógicas. Existem quatro livros de linhagem que se tem conhecimento, nos dois primeiros, século XIII, haviam apenas listas de nomes, mas no terceiro e no quarto haviam pequenas narrativas, como a Batalha do Salado, no livro III. No livro IV, há uma tentativa de contar a história completa de portugal, a partir de Adão e Eva.

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Literatura Portuguesa – A Poesia Trovadoresca

A atividade lírica era memorizada pelos que compunham ou interpretavam as composições e não haviam registros escritos. Por conta disso, a literatura portuguesa inicia-se oficialmente somente em 1189, quando Paio Soares de Taveiros, trovador da época, compõe uma cantiga a Maria Pais Ribeiro ( A Ribeirinha, favorita de D. Sancho I) e não se sabe ao certo a origem da poesia medieval. Por influência provençal, o lirismo consolidou-se na Península Ibérica e o novo ambiente fez com que algumas de suas características sofressem alterações, como a intensidade da platonização da confidência amorosa das cantigas.

As cantigas eram caracterizadas pela aliança entre poesia, música, canto e dança. E acompanhadas por instrumentos de sopro, corda e percussão. Além do trovador, que podia tanto compor quanto cantar e instrumentar as cantigas, havia o jogral (ator mímico, saltimbanco, música, compositor ou truão), o segrel (trovador profissional que interpretava cantigas próprias ou não a troco do soldo) e o menestrel (músico da corte).

A terminologia poética era feita da seguinte forma: o verso era chamado de palavra e, quando fosse sem rima,palavra-perduda, as estrofes com rimas próprias eram chamadas de cobras singulares;as estrofes com estruturas próprias eram chamadas de fiinda; o encadeamento (quando o final de .verso liga-se ao próximo sem interrupções) era chamado atafinda; a repetição de uma palavra dentro da mesma estrofe era dobre e mordobre; e quando o trovador recorria as mesmas expressões ou sinônimos para expressar um sentimento inalterado era chamado de paralelismo. Entre outros termos.

A poesia trovadoresca é dividida em duas espécies principais: O lirismo-amoroso, que se subdivide em cantigas de amor e cantigas de amigo, e a sátira, que se subdivide em cantigas de escárnio e cantigas de maldizer.

Cantigas de amor são caracterizadas pela presença de uma dama inacessível, geralmente por sua condição social superior, pela qual o trovador faz uma confissão de amor. Um ótimo exemplo é a cantiga de Paio Soares de Taveiros (Século XII e XIII) que deu início ao histórico da literatura portuguesa. Já as cantigas de amigo apresentam o sofrimento da mulher, geralmente pertencente das camadas populares, que ergue sua voz dirigindo sua confissão as amigas, a mão ou a algum elemento da natureza, como os pássaros ou as flores. As cantigas de escárnio, por sua vez, faz o uso de ironia e sarcasmo para construir a sátira. E as cantigas de maldizer são feitas com agressividade e a sátira é construída sem eufemismos ou meias palavras.

Referências bibliográficas

MASSAUD, MOISÉS — A Literatura Portuguesa, São Paulo, Editora Cultrix, 10ª
ed., 1972.

Mãos à celulose: parte II

Repertório

Sejamos sinceros: bloqueio criativo é apenas um eufemismo utilizado por escritores que não querem reconhecer o fracasso temporário, isto é: admitir que não têm nada a dizer. Aquela terrível situação de olhar para a folha em branco, ou para a tela do computador com a barrinha vertical torturante que pisca a cada segundo. Sem nenhum assunto, nenhuma ideia. Acontece que ninguém prepara um bolo sem os produtos necessários. A imagem é bem esta: colocar uma fôrma vazia dentro do forno e esperar que dali saia um bolo saboroso, com cobertura de chocolate e granulados. O mesmo ocorre com a narrativa; ela precisa de ingredientes para se desenvolver e adquiri-los é tarefa do escritor. Infelizmente ainda somos bombardeados por mitos que descrevem grandes figuras literárias a construir romances num par de semanas, sem esforço, como que iluminadas por forças sobrenaturais. Mas a verdade é que os escritores prolíficos demoram para armazenar os próprios arsenais de ideias antes de, como se diz, colocar o bumbum na cadeira e escrever. Essas ideias estão em toda a parte: na infância, na família, nos amigos, nas verdades, nas mentiras, nos livros, nos filmes, na fila do banco, no metropolitano, no autocarro… Os personagens e as cenas do seu romance serão diretamente influenciados por essas ideias. Trocando em miúdos, os personagens também precisam de frequentar a escola, de estudar, de viver, de sair, de sentir, de formar-se. Suponhamos, por exemplo, que você queira escrever um conto sobre a imensidão do Cosmos, porque a astronomia sempre lhe causou enorme fascínio. Você ainda está confuso, não sabe ao certo como irá desenvolver o conto. Chega à conclusão de que, em criança, o protagonista queria ser astronauta, mas crescera numa família difícil, algumas tragédias, a vida o levara para outros sítios, e ser astronauta fora apenas isto: um sonho que não poderia ser concretizado, como tantos sonhos que sonhamos e não dão em nada. Esta é a base do conto, o esboço de um personagem que pode (e deve) desvendar um bocado sobre si, sobre as pessoas que você ama, sobre as pessoas que você despreza, sobre as decepções, sobre resignar-se etc. etc. É o momento de adquirir repertório, conhecimentos, dar verossimilhança, pesquisar com afinco sobre a vida de um astronauta, ler Endurance – um ano no espaço, de Scott Kelly, ler Neil deGrasse Tyson, Michio Kaku, divertir-se com as aulas do professor Brian Cox, com a voz robótica dos documentários sobre Stephen Hawking, ler Carl Sagan. Tais pesquisas vão lhe dar as devidas ideias/ferramentas/conteúdos para construir os personagens do conto, as cenas, as situações desafiadores — o enredo. E como o tema lhe agrada muitíssimo, pode ter a certeza de que serão tarefas prazerosas, engrandecedoras. Certo… agora que você possui folhas e folhas de anotações sobre os mais diversos detalhes cosmológicos, agora que você sabe como é a experiência de um astronauta dentro de uma espaçonave, agora que você sabe a respeito do processo de se tornar um astronauta, das dificuldades, dos dissabores, das glórias, das derrotas, dos riscos, agora que você sabe o que é matéria escura, o que é a radiação cósmica de fundo em micro-ondas, como funcionam os buracos negros, em suma: agora que você possui os ingredientes do bolo, experimente sentar-se à escrivaninha para começar o conto. Garanto-lhe que a página não permanecerá em branco por muito tempo.

— P. R. Cunha

via Mãos à celulose: parte II

Mãos à celulose: parte I —

“No entanto, a verdade é que escrever um livro, mesmo uma novela de aproximadamente 40 mil palavras, é tarefa que exigirá imenso de quem pretende colocá-la em prática. Pesquisas, cenas inúteis, personagens inúteis, o começo não está muito bom, o miolo está horrível, o protagonista parece um zumbi de tão vazio, as primeiras 50 páginas mostram-se péssimas, e centenas de outras decepções. Para enfrentá-las, o escritor precisará de motivação. Novamente, entro aqui num banco de areia movediça bem pessoal, pois as motivações também dependem de inúmeros fatores. De repente você escreve para conquistar o coração de alguém, ou para mostrar a um professor incrédulo que você consegue sim escrever o melhor romance de sempre, escreve porque sente raiva, escreve porque busca serenidades, escreve porque a escrita tornou-se um refúgio para si, escreve porque as palavras fazem-lhe esquecer-se, escreve porque quer ganhar dinheiro, porque quer deixar uma obra literária para os filhos lerem, escreve porque quer contar na próxima entrevista de emprego «faço isto, e aquilo, e isto, e ainda escrevi um livro»… Não importa. A ideia é cultivar motivações que possam ajudá-lo a seguir em frente quando a corda apertar-lhe no pescoço, motivações que impeçam-no de desistir”.

— P. R. Cunha

via Mãos à celulose: pvarte I —

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